Depressão: Doença ou falta de DEUS?

A depressão é uma doença séria e deve ser tratada e não negligenciada pelas pessoas que convivem com o mal ou com os familiares ao redor.

A palavra “depressão” vem do latim depressio, de deprimere, que significa “apertar firmemente”, “para baixo”.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é uma doença mental de elevada prevalência e é a mais associada ao suicídio, tende a ser crônica e recorrente, principalmente quando não é tratada.

Com certeza você já passou por uma situação em que se sentiu triste ou desanimado e ouviu alguém dizer a frase muito comum “vai passar”. 

Na depressão, a tristeza ou desânimo são muito mais intensos, profundos e de longa duração do que um sintoma passageiro, e difere de uma tristeza ou mau-humor desenvolvidos por alguma situação vivenciada e que logo passa.

A pessoa que enfrenta a doença (depressão) atravessa semanas em um sofrimento e estado de vazio, que geram comportamentos destrutivos que podem colocar em risco a vida do indivíduo doente.

Além disso, a depressão faz com que a vida da pessoa fique comprometida, ou seja, interfere drasticamente na sua capacidade de estudar, fazer exercícios, trabalhar, dormir ou até comer.

Depressão: sintomas

Os sintomas da depressão variam muito em cada caso e aumentam gradativamente ao longo de dias e semanas.

Sentimentos que vão desde culpa a insônia podem ser observados na maioria das pessoas que enfrentam este mal.

Pessoas em depressão não conseguem estabelecer relacionamentos saudáveis e até o andamento da própria vida, o que compromete a realização de tarefas do dia a dia.

Os principais sintomas da depressão segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM 5):

  • Estado deprimido (sentir-se deprimido a maior parte do tempo, sem sentir prazer nas atividades que antes gostava)
  • Anedonia: interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina
  • Sensação de inutilidade ou culpa excessiva
  • Dificuldade de concentração: habilidade frequentemente diminuída para pensar e concentrar-se
  • Fadiga ou perda de energia
  • Distúrbios do sono: insônia ou hipersonia praticamente diárias
  • Problemas psicomotores: agitação ou retardo psicomotor
  • Perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar
  • Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio

O Manual DSM 5 considera o sujeito com depressão quando se encaixa em alguns dos sintomas citados acima, porém classificado em três grupos:

Depressão menor: dois a quatro sintomas por duas ou mais semanas, incluindo estado deprimido ou anedonia

Distimia: três ou quatro sintomas, incluindo estado deprimido, durante dois anos, no mínimo

Depressão maior: cinco ou mais sintomas por duas semanas ou mais, incluindo estado deprimido ou anedonia.

Se algum colega ou familiar perceber um ente querido com alguns dos sintomas relacionados na lista acima, procure conversar de maneira tranquila e sem julgamentos, a empatia fará toda diferença para o doente procurar ajuda.

Depressão: doença espiritual?

A depressão é uma doença mental que apresenta diversos sintomas e se o tratamento for negligenciado, pode afetar estruturas cerebrais e aumentar a chance de desenvolvimento de outros transtornos.

Além disso, se a depressão for prolongada, pode acometer partes do cérebro, como o hipocampo, responsável pela formação de novas memórias.

A OMS relata que “há evidências de deficiência de substâncias cerebrais, chamadas neurotransmissores. São eles Noradrenalina, Serotonina e Dopamina.” Quando há um desequilíbrio na produção delas, a doença se instala.

Estresse físico e psicológico; alimentação, sedentarismo, consumo de drogas lícitas e ilícitas; alguns medicamentos; alguns tipos de doenças, como o hipotireoidismo, quando não tratado e eventos traumáticos na infância ou mesmo na vida adulta são disparos que podem influenciar no adoecimento de algumas pessoas.

No entanto, nem todas as pessoas reagem da mesma forma por conta dos fatores genéticos envolvidos nos casos de depressão, que é uma doença que pode ser provocada por uma disfunção bioquímica do cérebro.

A depressão é uma doença que abala mais de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro, inclusive em crianças, e ainda é tratada como uma doença espiritual por pessoas que enfrentam ou conhecem alguém que esteja passando por este mal.

Existe uma diferença entre a depressão estar relacionada à espiritualidade e a pessoa apegar-se a Deus ao enfrentar uma situação difícil.

A fé pode ajudar na cura da doença, mas, não significa que a depressão seja uma doença espiritual ou ação demoníaca. 

Quando a doença é tratada como “falta de Deus”, há a grande chance de que as pessoas vejam a depressão como frescura ou drama, por exemplo, e isso dificulta o tratamento da doença, pois pode causar resistência por parte da pessoa que enfrenta o problema.

Relatos do Especialista Dr. Ismael Sobrinho

Dr. Ismael Sobrinho é médico psiquiatra e especialista em psicogeriatria, em seu livro “Depressão: o que todo cristão precisa saber“, relata que “entre cristãos, o preconceito e o desconhecimento parecem ser ainda maiores.”

Para ele, a depressão normalmente é vista como “problema espiritual” e uma doença que não acomete pessoas que “frequentam uma igreja” — às vezes, o “diagnóstico” vem até acompanhado de um juízo de valor do tipo “Isso não acontece com quem é cristão de verdade”, ou rótulos similares. 

Dr. Ismael Sobrinho conclui que “os que são acometidos de depressão têm sido acusados de estarem “sem fé” ou “em pecado”, ou que a depressão ocorre por “não estarem orando o suficiente” ou estarem oprimidos espiritualmente, fazendo uma associação velada ao estado de possessão demoníaca.”

Dr. Ismael descreve em seu livro que boa parte dos cristãos que atende dizem que “não sou doido para estar aqui”, “depressão é falta de fé”, “é algum pecado que não consegui eliminar”, “é porque perdi a comunhão com Deus e deixei de orar muito”, “Doutor, deve ser alguma brecha no mundo espiritual, e o Diabo está me oprimindo.”

Deste modo, os cristãos demoram procurar ajuda por conta da vergonha e medo e quando chegam a procurar a doença já causou muitos danos na vida da pessoa, em todas às áreas.

Em um relato, de dois de muitos casos do Dr. Ismael descrito em seu livro, de um pastor e uma ministra de louvor em um grupo católico carismático, somente depois de alguns atendimentos eles aceitaram o diagnóstico de depressão e aderiram ao tratamento medicamentoso, receberam apoio da família, foram orientados fazer psicoterapia e tiveram supervisão pastoral.

Sobrinho expõe que o tratamento adequado para o pastor citado acima foi um “aprendizado muito importante”, ele deixou de ser preconceituoso em relação as doenças relacionadas, mentais.

O autor diz que o pastor depois de ter passado por sua própria experiência, ficou mais humano e sensível, passou fazer aconselhamento cristão de forma mais sistematizada, observando todos os indícios. 

Quando detecta um possível problema com maior gravidade ele faz o encaminhamento para profissionais especializados, como psicólogos e psiquiatras.

Dr. Ismael relata ainda que “após procurarem ajuda médica e emocional, o pastor e a ministra de louvor não ficaram céticos nem deixaram de acreditar na cura divina ou no poder da oração.”

“No entanto, ambos se tornaram mais humanos, sensíveis e puderam entender melhor o conceito bíblico de que o homem é um ser composto de uma parte material — que abrange corpo físico e processamento emocional — e uma parte imaterial, que abrange a sua natureza espiritual. Eles compreenderam que sem saúde emocional a vida espiritual e a física são seriamente comprometidas e limitadas.”, explica Dr. Ismael.

Deste modo, o autor do livro ressalta que é uma tarefa difícil, mas necessária a todo cristão, principalmente para aqueles que são responsáveis pelo cuidado da saúde emocional e espiritual de outras pessoas, como os líderes espirituais e os que dão aconselhamento em sua comunidade: “É necessário compreender melhor a diferença entre o que é físico, emocional ou espiritual em um transtorno mental é tão complexo como a depressão.”

A causa da depressão e alguns fatores

  1. Carga genética
  2. Bioquímica cerebral (alterações hormonais)
  3. Traumas experimentados na infância (abusos, abandono, negligência dos pais)
  4. Eventos que envolvem uma perda de algum familiar
  5. Doenças físicas
  6. Alimentação (do tipo inflamatório)
  7. Medicamentos

Depressão: tratamento

  • Psicoterapia
  • Medicamentos (receitados por um médico especialista)
  • Apoio de familiares e amigos
  • Alimentação (como alimentos com propriedade anti-inflamatório)
  • Atividade física
  • Busca da espiritualidade

O tratamento varia de acordo com a gravidade da doença e pode ser diferenciada desde depressão menor a maior.

A maioria das pessoas que enfrentam a doença não precisam ser hospitalizadas, mas o agravamento da depressão pode fazer com que o médico considere esta internação, especialmente em pessoas que já tentaram cometer suicídio.

A depressão não pode ser tratada como frescura ou fraqueza da pessoa que enfrenta este terrível mal. 

O grande ponto do tratamento da depressão é a compreensão e empatia das pessoas que rodeiam o indivíduo doente. Então, é extremamente importante que familiares estejam envolvidos no tratamento e prestem apoio necessário.

No processo psicoterapêutico o profissional ajuda a pessoa elaborar e compreender melhor os fatores estressores que contribuem para o quadro depressivo, como por exemplo: a pessoa entender as distorções na interpretação dos fatos na vida, os conflitos, os pensamentos intrusivos, negativos, alterações físicas comportamentais que fazem parte dos sintomas que caracterizam a depressão.

Deste modo, a terapia colabora para aqueles pacientes resistentes ao uso da medicação, e o tratamento psicológico traz a compreensão da necessidade do tratamento com médico psiquiatra, em cuidar da espiritualidade, em dormir bem, cuidar da alimentação e praticar atividade física, aderindo ao tratamento por completo. 

Sem a medicação, alguns pacientes dependendo do grau da doença não conseguem organizar suas ideias para se conectar com sua história de vida para que essa história no futuro venha ser lembrada sem dor e que essa lembrança fique em seu devido lugar, no passado. E uma nova história será construída através de um novo olhar.

Portanto, tanto o tratamento psicoterapêutico como o tratamento com psiquiatra são fundamentais na cura da depressão.

Minha experiência na clínica, trabalhando com pacientes depressivos, na maioria dos casos, conseguiram resolver seus conflitos internos e o médico foi aos poucos diminuindo a dosagem da medicação até que foi tirado por completo.

O mais bacana é quando a pessoa depressiva toma consciência que os sintomas são provenientes da doença e que existe uma solução, onde pode perceber que é uma doença que pode ser tratada. 

Grupos de conversa também podem ajudar a pessoa a enfrentar a depressão e inclusive, os familiares também podem participar, pois, do mesmo modo, estes também precisam de suporte para entender, da melhor forma, a pessoa depressiva.

A psicoterapia pode auxiliar a pessoa depressiva a voltar gradativamente às suas antigas responsabilidades e adequar-se às questões normais da vida.

O encanto da terapia é que ela tem a capacidade de influenciar positivamente na regulação química cerebral, fazendo com que a pessoa seja capaz de mudar a emoção, comportamento e pensamentos através do estímulo positivo que acontece no sistema límbico, estimulando a memória e a tomada de decisão.   

Este artigo foi útil para você? Deixe seu comentário logo abaixo. 

Este post tem 2 comentários

  1. Sergio Ferreira

    Muito bom este artigo informativo, já tinha conhecimento, porém foi muito útil relembrar!
    Parabéns!!!

    1. Edilene S Monteiro PSI

      Obrigada Sérgio!

Deixe uma resposta