O corpo no reprocessamento do trauma também merece atenção durante o acompanhamento psicológico. Algumas experiências difíceis podem repercutir não apenas nas lembranças e emoções, mas também na maneira como percebemos as sensações corporais e reagimos a determinadas situações. Além disso, essas respostas podem variar conforme o contexto e a história de cada pessoa.
Você já percebeu que, diante de uma situação difícil, seu coração acelera, sua respiração muda ou surge um aperto no estômago antes mesmo de conseguir entender o que está sentindo?
Em outros momentos, pode ser difícil identificar uma sensação ou encontrar palavras para explicar o que acontece. Cada pessoa vivencia essas experiências de uma maneira própria.
Na terapia, observar o corpo pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo naquele momento. Entretanto, uma sensação corporal, sozinha, não revela necessariamente sua causa.
Neste artigo, vamos conversar sobre a relação entre o corpo e o reprocessamento do trauma, a importância de reconhecer as próprias sensações e os cuidados necessários para compreender essas experiências com respeito e acolhimento.
O que é interocepção e qual sua relação com o corpo no reprocessamento do trauma?
A interocepção é a capacidade de perceber sinais que vêm de dentro do corpo. Por exemplo, ela envolve sensações relacionadas à respiração, aos batimentos cardíacos, à temperatura e ao funcionamento do estômago.
Nem sempre percebemos esses sinais com clareza. Algumas pessoas identificam facilmente quando ficam tensas ou ansiosas. Outras percebem apenas que algo mudou, sem conseguir nomear o que sentem.
Também é possível que prestar atenção às sensações internas provoque desconforto em determinados momentos. Por isso, não existe uma única maneira de perceber o corpo, e essa percepção pode variar conforme o contexto, o estado emocional, o cansaço e as experiências de cada pessoa.
Nesse sentido, a literatura científica discute a importância da interocepção e de outras formas de percepção corporal na compreensão das experiências humanas. Um exemplo é o artigo de Peter Payne, Peter Levine e Mardi Crane-Godreau sobre Experiência Somática, interocepção e propriocepção no tratamento do trauma.
Esse trabalho apresenta uma discussão teórica e clínica sobre esses conceitos. Ele não deve ser entendido, isoladamente, como comprovação definitiva da eficácia de uma abordagem para todas as pessoas ou situações.
Compreender a interocepção nos ajuda a reconhecer que as sensações corporais fazem parte da experiência humana. Ainda assim, é necessário considerar o contexto de cada pessoa antes de atribuir um significado a elas.
Por que observar o corpo durante o reprocessamento do trauma?
Quando uma lembrança ou situação difícil é abordada na terapia, podem surgir mudanças na maneira como a pessoa se sente. Algumas são percebidas emocionalmente; outras aparecem primeiro como sensações corporais.
Você pode notar, por exemplo, que sua respiração fica mais curta ao falar de determinado assunto ou que uma tensão aumenta quando uma lembrança vem à mente. Também pode perceber que uma sensação diminui depois de falar sobre algo que antes parecia difícil de expressar.
Essas mudanças podem oferecer informações importantes para a conversa terapêutica. Elas ajudam a formular perguntas e a compreender como uma experiência está sendo vivenciada naquele momento. Entretanto, não significam, por si só, que uma pessoa esteja revivendo um trauma ou sentindo determinada emoção.
Isso não significa que toda alteração corporal seja um sinal de trauma ou que o psicólogo possa saber exatamente o que você sente apenas observando sua postura ou expressão.
A observação precisa caminhar junto com a escuta e com aquilo que você consegue comunicar.
Por isso, em vez de atribuir um significado imediato a uma sensação, é importante investigar com cuidado: o que você percebeu no corpo? Quando essa sensação começou? O que estava acontecendo naquele momento? Como você compreende essa experiência? Essa sensação é familiar ou parece algo novo para você?
O objetivo não é encontrar uma explicação rápida para cada sinal, mas construir uma compreensão que respeite sua história e sua experiência.
Quando é difícil identificar ou expressar o que você sente
Nem sempre é fácil dizer “estou com medo”, “estou triste” ou “isso me deixou desconfortável”. Às vezes, a pessoa percebe apenas que ficou inquieta, sentiu um aperto ou teve vontade de se afastar.
Em outros momentos, pode sentir-se confusa ou não conseguir identificar uma emoção específica. Isso não significa que esteja fazendo algo errado ou que precise encontrar imediatamente uma explicação.
A terapia pode oferecer um espaço para observar essas experiências aos poucos, com perguntas e intervenções adequadas ao momento. Você não precisa ter todas as respostas antes de começar a compreender o que acontece consigo.
Também é importante reconhecer que nem toda pessoa se sente confortável ao direcionar a atenção para o corpo. Se prestar atenção à respiração ou a uma sensação interna aumentar o desconforto, isso precisa ser considerado.
O trabalho terapêutico pode ser adaptado, sem exigir que você permaneça concentrado em algo que esteja se tornando difícil demais.
O que as sensações corporais podem — e não podem — nos dizer?
Uma mudança na respiração pode acontecer por diferentes motivos. Um olhar distante, um silêncio ou uma alteração na postura também podem ter significados diversos.
Por isso, não é adequado concluir, a partir de um único sinal, que uma pessoa está revivendo um trauma, dissociando ou sentindo determinada emoção. É necessário considerar o contexto, perguntar sobre a experiência e ouvir a própria pessoa.
Além disso, sintomas físicos podem ter causas médicas e não devem ser automaticamente atribuídos a fatores emocionais. Quando necessário, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde habilitado.
Essa cautela não diminui a importância do corpo no reprocessamento do trauma. Pelo contrário: reconhece que as sensações merecem atenção sem que sejam transformadas em interpretações definitivas.
Na prática clínica, observar é apenas uma parte do processo. Perguntar, escutar e compreender o significado daquela experiência para a pessoa também são fundamentais.
Como observar o corpo na terapia on-line?
Na terapia on-line, a observação corporal também pode fazer parte do acompanhamento, embora existam particularidades em relação ao atendimento presencial.
Na minha prática clínica, prefiro que a câmera permita observar não apenas o rosto, mas também uma parte significativa do corpo, idealmente da cintura para cima, quando isso for viável e confortável para a pessoa.
Esse enquadramento pode ampliar as possibilidades de perceber mudanças na postura, nos movimentos e na respiração durante a sessão. Ainda assim, a câmera não permite compreender tudo o que acontece com alguém.
Essa é uma orientação da minha prática clínica, não uma regra universal para todos os atendimentos on-line. O enquadramento precisa respeitar a privacidade, o conforto e as condições de cada pessoa.
Mesmo com uma boa imagem, a câmera não permite compreender tudo o que acontece com alguém. Alguns sinais não são visíveis, e aquilo que parece evidente para quem observa pode ter outro significado para quem está vivenciando a experiência.
Por isso, a comunicação continua sendo fundamental. Observar não substitui perguntar, e nenhuma imagem substitui a escuta.
É necessário prestar atenção ao corpo o tempo todo?
Não. O trabalho terapêutico não exige que você monitore cada sensação nem que encontre um significado para todas as mudanças corporais.
Em determinados momentos, pode ser útil perceber uma sensação. Em outros, conversar sobre uma situação, compreender um pensamento ou voltar a atenção para o ambiente pode ser mais adequado.
O que faz sentido depende do objetivo da sessão, da abordagem utilizada e da maneira como você está vivenciando aquele momento.
O corpo é uma dimensão importante da experiência humana, mas não é a única. Memórias, emoções, pensamentos, relações e condições atuais também precisam ser considerados.
Por isso, o trabalho terapêutico não deve se transformar em uma busca constante por sinais corporais. A atenção às sensações precisa ter uma finalidade clínica e respeitar aquilo que faz sentido para cada pessoa.
Como o corpo participa do processo de reprocessamento do trauma?
No reprocessamento do trauma, a atenção às sensações pode ajudar a compreender como uma experiência está sendo vivenciada enquanto o trabalho acontece. Essa observação, entretanto, precisa estar integrada à avaliação clínica e à condução terapêutica.
Não existe uma única maneira de trabalhar essas experiências. Os recursos utilizados dependem da abordagem, dos objetivos do acompanhamento e das necessidades de cada pessoa.
No artigo Terapia on-line e reprocessamento do trauma: como funciona?, explico o processo de maneira mais ampla e apresento os recursos terapêuticos que podem fazer parte do acompanhamento.
Da mesma forma, compreender como a sessão é organizada e como a segurança e a presença terapêutica fazem parte do atendimento é importante para conhecer melhor esse cuidado na modalidade on-line. Esse assunto é aprofundado no artigo Reprocessamento do trauma on-line: segurança, presença e cuidado terapêutico..
Cada texto aborda uma parte desse cuidado, para que você possa compreender melhor o processo sem reduzir sua experiência a uma explicação única.
Escutar o corpo também é respeitar seus limites
As sensações corporais podem oferecer pistas importantes sobre como estamos vivenciando o mundo. Portanto, precisam ser compreendidas com cuidado, sem conclusões precipitadas e sem desconsiderar outras possíveis explicações.
Na terapia, você pode aprender a reconhecer o que percebe, encontrar palavras para aquilo que ainda parece confuso e compreender melhor sua própria experiência. Esse processo não precisa acontecer de maneira apressada.
O corpo no reprocessamento do trauma não deve ser visto como algo separado da sua história, mas também não deve ser tratado como se cada sensação tivesse um significado único ou previsível.
Seu corpo merece ser escutado, mas você não precisa interpretar tudo sozinho. A compreensão é construída ao longo do acompanhamento, considerando sua história, suas necessidades e o que faz sentido para você.
Se você deseja compreender melhor como esse cuidado acontece, a psicoterapia pode ser um espaço para conversar sobre suas experiências, esclarecer dúvidas e construir, junto ao profissional, caminhos de cuidado compatíveis com suas necessidades.
Edilene Soares Monteiro
Psicóloga — CRP 16/2948
